A Fundação Pedroso Horta promoveu no Senado Federal, durante os trabalhos constituintes, o Encontro Brasil-África. Seus objetivos foram o de promover uma maior reflexão sobre o sentido da Abolição da Escravatura, passados cem anos, e o de influir na elaboração da nova Constituição do país no que diz respeito a normas anti-racistas e de promoção daqueles que são vítimas do preconceito racial ainda hoje no Brasil. Combinando análise acadêmica e depoimentos de vida pungentes, o Encontro constituiu-se em verdadeiro libelo contra o racismo arraigado no inconsciente nacional, em anti-comemoração da Abolição de 1888.
O Sr. Presidente (Antonio Rangel Bandeira) - Tendo ouvido o Professor Antonio Cândido, cujas intervenções são sempre aulas de humanismo, vamos ouvir agora o nosso Gilberto Gil, Presidente da Fundação Gregão Gregório de Matos.
O Sr. Gilberto Gil - Eu queria antes de tudo, agradecer à Fundação
Pedroso Horta, especialmente ao Senador Severo Gomes, o convite para participar
deste encontro profícuo e aprofundador dos nossos olhares sobre
a questão da cultura brasileira naquilo que ela recebe de contribuição
mais profunda do elemento negro no País.
Como artista, e não acadêmico, não especialista, não
manipulador dos enfoques científicos, eu gostaria de deitar sobre
a questão um olhar que eu diria mais panorâmico, sem redução
de foco sobre aspectos específicos, eu gostaria de falar abrangentemente
daquilo que é um sentimento poético, digamos assim, típico
da nossa lavra, sobre a questão plural da contribuição
negra à cultura brasileira.
Primeira coisa a considerar quanto ao negro na vida brasileira, é,
antes de tudo, a sua presença massiva na formação
de povos de muitas regiões do País. Foram alguns milhões
de escravos que vieram para a Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco,
Maranhão, São Paulo e que hoje representam, na sua descendência,
no mínimo, pelas estatísticas mais negligentes, 50% da populaçãonacional.
Se considerarmos os negros mestiços, teremos acima de 60% do povo
brasileiro de gente de cor. A cor do Brasil. Aí está um primeiro
dado de fundamental importâcia. O País é predominantemente
mestiço com preponderância das tonalidades escuras, preponderância
natural nos cruzamentos com a raça. Isto porque o gen da raça
negra é dominante, e as características da mesma prevaleceriam
sempre no fenômeno da mestiçagem. Entra já aí
uma questão profunda com relação ao chamado "branqueamento"
do negro do Brasil e, em contraposição, o "enegrecimento"
do branco ou qualquer coisa do tipo.
O Brasil tem, portanto, uma cara negro-mestiça e o seu inconsciente
é negro. Se considerarmos as dimensões continentais do País,
o Brasil acaba sendo a Nação mais racial e culturalmente
marcada pela influência do negro.
Já de início, pelo trabalho no eito, o escravo africano teria
a oportunidade de transferir para o Brasil importantes fatores de desenvolvimento
da tecnologia do trabalho humano, a níveis da época. Operando
na vida tribal africana já avançados processos de cultivo
agrícola e dominando, devido à diversidade e exuberância
da fauna nativa, técnicas desenvolvidas de pastoreio, o trabalho
negro, nas novas terras da América, veio significar importante transferência
tecnológica para o desenvolvimento da nossa "engatinhante"
Nação. Sua simples presença e seu trabalho, cultivando
a terra, cuidando do gado, aplicando, em função das novas
exigências, toda uma artesania desenvolvida em suas tribos, acrescentando
até as técnicas européias de mineração
e metalurgia, todo um conhecimento empírico já bastante desenvolvido
no trato dos metais em suas terras africanas, tudo isto conferiria ao negro
escravo no Brasil, logo de início, uma extraordinária importância
cultural.
À medida em que se agrupam em conjuntos populacionais cada vez maiores
e mais participantes da formação do que poderíamos
chamar as primeiras camadas populares do Brasil, os negros foram estabelecendo
o possível processo de interação com a elite dominante.
Logo surgem as dinâmicas da nova fala brasileira, onde o negro vai
ter papel preponderante. Novas linguagens, novos modos expressivos, novas
sintaxes, novos léxicos, nova língua. O negro ajuda e muito
a formar a língua brasileira. "Tudo aquilo que o malandro pronuncia
com voz macia é brasileiro, já passou de português",
no dizer de Noel Rosa. Misturados à língua colonial, o Kikongo,
o Kibundo, o Yorubá e o Fon vão oferecer muito mais que o
nativo Tupy o substrato tonal e rítmico para a formação
do profundamente encantador e sedutor linguajar brasileiro.
Enquanto as línguas indígenas vão permanecer apenas
nas suas remanescências tribais, ou, quando muito, vão fornecer
a leitura nativista, ecológica da fauna, da flora e dos acidentes
geográficos - jaguatirica, maracujá, ipanema - as línguas
africanas vão interferir mais profundamente no nexo, no léxico,
na rítmica e no colorido geral da língua brasileira.
A fala tabaroa de Minas, a Língua docemente musical do Recôncavo
Baiano, o modo Carioca, todos vão estar ligados ao carácter
africanizante da cultura linguística do País. Expressões
africanas vão renascer brasileiras: caçula, bunda, quiabo,
fuxico, maconha, samba, camundongo, para não falar de dengoso, em
que um novo adjetivo é formado pela aposição de um
sufixo português clássico - oso - a uma palavra africana -
dengo. E, assim, vem o negro criando, com graça incomparável,
paisagens indescritíveis na sonoridade da língua do país.
Inestimável contribuição cultural! Vão se juntar
aos tons e cadências da fala, as cores e sabores da mesa. A cultura
culinária, doada pelo negro ao Brasil, é incomparável.
Além dos traslados de suas especiarias tribais - vide A Comida Baiana
- vão criar também, a partir de desafios e estímulos
locais, uma culinária negra brasileira. A feijoada seria, sem dúvida,
a sua mais egrégia representante, para não falar da extensa
e surpreendente cozinha mineira de tonalidades morenas e sabores fortes.
O negro aprofunda a culinária brasileira.
No terreno da religião, é espantoso o trabalho operado pela
matriz africana na formação das nossas crenças, hábitos
e modos existenciais em geral, antes de tudo, a transferência do
panteon ou dos vários panteons africanos para cá. O panteísmo
puro e orgânico, religiosidade vitalista, estabelecida a partir de
um enraizamento profundo da árvore da vida no solo da existência,
existencialismo sem resíduos racionalistas, aqui e agora, pleno
e inadvertido, no casamento mais estreito entre o homem e a natureza, vivência
otimizada da libertária dimensão pagã da esfera material,
jardim dos deuses, paraíso real das plantas, dos bichos, dos homens
e dos raios, a religião africana, já, por si só, representa
uma presença criadora, impondo-se com tranquila superioridade ao
povo brasileiro, substituindo o vitalismo derrotado de tupã. Para
além daí o panteísmo africano ainda vai trabalhar
novas combinações, novas mixagens com elementos do cristianismo
católico e Kardecista de origem européia, estabelecendo as
religiões do candomblé sincretizado e da umbanda, tais quais
conhecemos hoje. Aliás, tendo sido eficaz reparar que, conquanto
possa ser a umbanda considerada como um contexto mais rigorosamente sincrético,
no candomblé da Bahia, o que se deveria entender seria mais a prática
de um bilinguismo religioso-cultural em que as duas formas religiosas,
ainda que se justaponham, na verdade, não se misturam. É
interessante observar, também, como o encontro da religião
africana com o catolicismo propiciou o surgimento de uma rara prática
religiosa que concilia, ao mesmo tempo, um politeísmo e um monoteísmo,
extraorinária originalidade cultural.
O olhar sobre o terreiro de candomblé vai nos mostrar a casa-de-santo
e sua comunidade como uma original reinvenção institucional
aglutinando, em torno do seu núcleo de religiosidade, todo um complexo
de vida política, administrativa, sócio-cultural e mesmo
econômica. O terreiro centraliza toda uma instituição
de governo, toda uma vida comunitária. O terreiro tem sido, além
do mais, um foco de preservação ecológica com os seus
conjuntos urbanísticos de desenho integrado ao enviroment, matas,
rios, rochas, grutas etc, e com a sua atividade essencialmente ligada pelas
práticas religiosas à vida e preservação de
espécies animais e vegetais indispensáveis. "Não
há orixá sem folha", diria Nivaldo Costa Lima, uma sábia
mãe-de-santo da Bahia. Na formação da vida brasileira,
no momento em que o desenvolvimento das cidades vai provocar a explosão
expansionista ao custo de um intenso efeito desagregador da unidade familiar
e da unidade individual em meio à proliferação do
caos civilizatório, o candomblé vai oferecer a populações
inteiras, como no caso da cidade de Salvador, uma alternativa ordenadora
e canalizadora de comportamentos. Como diz Antonio Ribeiro, "não
deve ter sido à toa que a proliferação dos terreiros
de candomblé na Bahia é contemporânea ao surgimento
dos consultórios psiquiátricos e psicanalíticos".
E o caldo cultural vai recebendo ingredientes e mais ingredientes negros!
Da música, nem é necessário falar. Todo o povo brasileiro
sabe do reinado negro na música popular, desde as velhas tias do
fim do século transato, de João da Baiana e Pixinguinha até
Tim Maia, Sandra Sá e Milton Nascimento; desde a primeira gravação
brasileira, a música "Pelo Telefone", de autoria e interpretação
negras, até a revolução do rádio, que vai substituir
as programações eruditizantes típicas do rádio
estatal, Rádio Roquete Pinto, por programações mais
populares típicas do competitivo rádio privado. Tudo isso
vai encontrar justamente na música negra sua grande fonte abastecedora.
Desde o branco negro Noel Rosa ao sambista Chico Buarque de Holanda, é
a cultura negra musical se expandindo e abraçando todo o País.
A nossa memória muscular está cheia de negritude. Pelas ruas,
pelas praças, pelos bailes, pelos jogos, nos xaxados e gingados
nossa atitude é negra. Negra atitude, negritude.
Gilberto Freyre, ao lançar seus derradeiros olhares sobre a vida
brasileira, via, ainda uma vez, o substrato do trato negro do corpo, mesmo
onde o negro não era o corpo. Não vejo diferença entre
o rebolado da Sônia Braga e o drible do Zico. Ele falava de um mesmo
traço essencialmente sensual rítmico do gesto brasileiro:
a gestuália negra. Ele falava de um mesmo desenho barroco da escola
brasileira de futebol, oswaldiana, antropofagicamente criada pelo negro
do dirigir e devolver, transcendia em sensualidade e dança, uma
prática esportiva inglesa. Ele falava de invenções
negro-brasileiras, como a bicicleta de Leônidas, a folha-seca de
Didi, as paradas, no peito e no pênalti, de Pelé, a embaixada
nacional da bola no pé.
Aliás, foi Gilberto Freyre também a esboçar o que
viria se tornar uma antropologia brasileira que teria, no negro, não
só o objeto básico do seu estudo, mas a ter mais tarde o
próprio negro como sujeito antropológico, verdadeira subversão
na produção desse tipo de conhecimento. Levi Strauss dizia
que a Antropologia é o ponto de vista do outro. Os trabalhos do
negro Júlio Santana Braga, um dos maiores etnógrafos vivos
do País, os trabalhos do Mestre Didi; e ainda em tempos abolicionistas,
a poesia abusivamente encharcada de negritude de Luis Gama, são
já o ponto de vista de si próprio, uma nova contribuição
cultural ao significado antropológico.
Por último, mas não menos importante, o nosso olhar pousa
o seu foco sobre o movimento que foi, sem dúvida, o maior momento,
incomparavelmente maior do que a luta buscada hoje por todos nós,
descendentes de escravos, da saga negra no País, o Abolicionismo.
Movimento literário, movimento político, movimento cívico,
movimento estimulador da reflexão e conhecimento científico,
propiciador da maior complexidade entre intelectuais de elite, classe média
negro mestiça, massas escravas sublevadas, Exército Nacional,
Igreja progresista e liberalismo internacional, jamais repetida com tal
fervor, elegância e virulência de linguagem e poder revelador
da verdadeira face da nacionalidade. O Abolicionismo de Nabuco, Rebouças,
Gama, Castro Alves e Patrocínio repousa, no fundo, indiferente de
nossa memória injusta, como um momento insuperável da luta
de integração daquele que João Ubaldo Ribeiro chama
de "o povo brasileiro". Ali, no Abolicionismo,metalurgizava-se,
pela primeira e insuperada vez, o metal negro/mestiço brasileiro,
convergência do melhor que o País já pode juntar de
seu élan civilizante, o Abolicionismo será sempre um dos
maiores momentos político-culturais deste País, que a necessidade
de destruir a obra da escravidão, como queria Nabuco, seja o mote
para a reterritorialização do espaço abolicionista
em nosso tempo, para que a face negra do povo, da vida e da cultura da
Nação seja plenamente revelada! (Palmas)