O FIM DA HISTÓRIA

    Gilberto Gil
    1991

    Não creio que o tempo
    Venha comprovar
    Nem negar que a História
    Possa se acabar

    Basta ver que um povo
    Derruba um czar
    Derruba de novo
    Quem pôs no lugar

    É como se o livro dos tempos pudesse
    Ser lido trás pra frente, frente pra trás
    Vem a História, escreve um capítulo
    Cujo título pode ser Nunca Mais
    Vem o tempo e elege outra história, que escreve
    Outra parte, que se chama Nunca É Demais
    Nunca Mais, Nunca É Demais, Nunca Mais
    Nunca É Demais, e assim por diante, tanto faz
    Indiferente se o livro é lido
    De trás pra frente ou lido de frente pra trás

    Quantos muros ergam
    Como o de Berlim
    Por mais que perdurem
    Sempre terão fim

    E assim por diante
    Nunca vai parar
    Seja neste mundo
    Ou em qualquer lugar

    Por isso é que um cangaceiro
    Será sempre anjo e capeta, bandido e herói
    Deu-se notícia do fim do cangaço
    E a notícia foi o estardalhaço que foi
    Passaram-se os anos, eis que um plebiscito
    Ressuscita o mito que não se destrói
    Oi, Lampião sim, Lampião não, Lampião talvez
    Lampião faz bem, Lampião dói
    Sempre o pirão de farinha da História
    E a farinha e o moinho do tempo que mói

    Tantos cangaceiros
    Como Lampião
    Por mais que se matem
    Sempre voltarão

    E assim por diante
    Nunca vai parar
    Inferno de Dante
    Céu de Jeová

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