LOGOS VERSUS LOGO

    Gilberto Gil
    1985

    Trocar o logos da posteridade
    Pelo logo da prosperidade

    Celebra-se, poeta que se é
    Durante um tempo a idéia radical
    De tudo importar, se para o supremo ser
    De nada importar, se para o homem mortal

    Abarrotam-se os cofres do saber
    Um saber que se torne capital
    Um capital que faça o futuro render
    Os juros da condição de imortal

    (Mas a morte é certa!)

    Trocar o logos da posteridade
    Pelo logo da prosperidade

    E assim por muito tempo busca-se
    O cuidadoso esculpir da estátua
    Que possa atravessar os séculos intacta
    Tornar perpétua a lembrança do poeta

    Mas chega-se ao cruzamento da vida
    O ser pra um lado, pra outro lado o mundo
    Sujeita-se o poeta à servidão da lida
    Quando a voz da razão fala mais fundo

    E essa voz comanda:

    Trocar o logos da posteridade
    Pelo logo da prosperidade

    E o bom poeta, sólido afinal
    Apossa-se da foice ou do martelo
    Para investir do aqui e agora o capital
    No produzir real de um mundo justo e belo

    Celebra assim, mortal que já se crê
    O afazer como bem ritual
    Cessar da obsessão pelo supremo ser
    Nascer do prazer pelo social

    E o poeta grita:

    Trocar o logos da posteridade
    Pelo logo da prosperidade

    Eis o papel da grande cidade
    Eis a função da modernidade

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