ÁGUA BENTA
     
    Gilberto Gil
    1996
     
    A água benta que batizou
    Contaminou o bebê
    A medicina e o seu doutor
    Nada puderam fazer
    O desespero se apoderou
    Do padre, do pai, da mãe
    Foi quando então alguém se lembrou
    De um feiticeiro de Ossãin
     
    Um simples banho de folhas fez
    O que não se esperava mais
     
    Depois, depois muitos muitos anos depois
    Rapaz, Aquele menino já então rapaz
    Se fez, um rei entre os grandes Babalaôs
    Dos tais, dos tais como já não se fazem mais
     
    A água benta que ao bel prazer, se desmagnetizou
    Desconectada do seu poder
    Por um capricho do amor
    Amor condutor do elan vital
    Que o chinês chama de chi
    Que Don Juan chama de nagual
    Que não circulava ali
    Ali na grã pia batismal
    O amor deixara de fluir
     
    Talvez, por mero defeito na ligação
    Sutil,entre a essência e a representação
    Verbal, que tem que fazer todo coração
    Mortal, ao balbuciar sua oração
     
    A água benta que o bom cristão
    Contaminou sem querer
    A fonte suja que o sacristão
    Utilizou sem saber
     
    A força neutra que move a mão
    Do assassino o punhal
    E o bisturi do cirurgião
    O todo total do Tao
     
    Lâmina quântica do querer
    Que o feiticeiro sabe ler
     
    Fractal, de olho na fresta da imensidão
    Sinal, do mistério na cauda do pavão
    Igual, ao mistério na juba do leão
    Igual, ao mistério na presa do narval
     
     
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