OS POUCOS E OS MUITOS
Este título, tirado do ensaio do poeta Octavio Paz, que recentemente nos deixou, não está aqui por acaso, mas porque faremos deles, o título, o ensaio e Octavio Paz, um uso indevido.
Um uso, porque abraçaremos algumas das idéias lá colocadas, de que "os homens se reconhecem nas obras de arte porque estas oferecem imagens de sua totalidade oculta" e que "não importa muito que a obra seja lida ao princípio só por alguns: a preservação da memória coletiva por um grupo, embora pequeno, é uma verdadeira tábua de salvação para a comunidade inteira. Nestas tábuas, as tradições e as culturas atravessam os mares do tempo".
Estas idéias estão opostas, para Paz, aos "assuntos públicos: idéias religiosas e políticas, disputas sobre as crenças e as instituições, movimentos de opiniões ...fatos, notícias e nomes...", que termina seu ensaio, após uma breve análise da difusão da publicação de poemas, constatando um movimento, inverso ao da mercadoria, de pequenas edições a verdadeiros baluartes de culturas nacionais e concluindo que, neste caso, é mais significativa a continuidade que a quantidade de exemplares. "A poesia não procura a imortalidade e sim a ressurreição".
Indevido, entretanto, porque usaremos suas idéias, não aplicadas à "mudança de sensibilidade e visão" intrínsecas a uma cultura formada e em evolução, mas a uma cultura em formação e a uma manifestação poética pouco ortodoxa: a música popular. "O leitor deve cultivar-se", concordamos com Paz, mas, em nosso caso brasileiro, cultivar-se sobre que chão? Qual é a nossa "totalidade oculta"? Em que ela se representa?
Alguns devem, com razão, incomodar-se de conviver com os poderosos influxos de culturas do primeiro mundo e nossas chimfrins manifestações de identidade nacional, mas não foi à toa que, no Brasil do pós-guerra, surgiu a necessidade de aprofundar-se a música popular para além da indústria do divertimento. Antes disso, haviam sido plantadas as sementes: Noel Rosa e a consolidação do samba nos meios de massa, Luiz Gonzaga e a invenção de um baião nordestino em pleno centro urbano do Rio de Janeiro, Dorival Caymmi e a construção de uma Bahia mítica e deleitosa. Coisas, hoje, tão naturais. Alguns exemplos de nossa propriedade criativa.
Caymmi, neste sentido, foi um dos nossos artistas mais claros. Um dos que mais voluntaria e deliberadamente trilhou a ponte entre o folclórico e o popular, confessando e aludindo às suas fontes, enquanto as recriava com rara mestria artística. Uma falsa Bahia? Sim, mas também uma representação possível da verdadeira. E não só da Bahia, porque, como Noel e Gonzaga, toca nossa "totalidade oculta".
Isto não quer dizer que não prossigam os "assuntos públicos", as vaidades e os divertimentos, elementos que a própria música popular carrega, como produto de massa que é. Mas existe também aí um eixo que sustenta, no tempo, "a preservação da memória coletiva". Entre nós e na nossa música, os poucos estão entre os muitos. É difícil distingui-los. Estão misturados. Fazem, praticamente, a mesma coisa.
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Este texto faz parte do release de Jussara Silveira - Canções de Caymmi