Noites Tropicais (solos, improvisos e memórias musicais) - Nelson Motta
Editora Ojetiva LTDA.

ISBN - 85-7302-292-2
2000
 

Uma noite de verão, pouco antes do carnaval de 1968, passei horas tomando chope e conversando com Glauber Rocha, Cacá Diégues, Gustavo Dah1 e Luiz Carlos Barreto no bar Alpino, em lpanema. Entusiasmados com o Cinema Novo, o Teatro Oficina, os discos de Gil e Caetano, excitados com o momento político e com aquele movimento artístico que não tinha sido articulado nem tinha nome mas estava em pleno andamento, com tantas novidades e tanta potência, começamos a imaginar uma festança para celebrar o novo movimento. Uma espécie de batizado modernista, uma festa tropical, uma gozação com o nosso mau gosto, cafajestice e sensualidade, com nossa exuberância kitsch. Vários chopes depois, cansado de tanto rir, cheguei em casa e esqueci do assunto.

No dia seguinte, com a dramática falta de notícias que aflige os colunistas no verão carioca, usei todo o espaço da coluna para contar, em forma de manifesto debochado, todas as besteiras que tínhamos imaginado no Alpino. Sob o título de "Cruzada tropicalista", irresponsavelmente enchi meia página de jornal celebrando o momento artístico com uma futura festa imaginaria, onde os homens estariam de ternos brancos, chapéus panamá e sapatos bicolores e as mulheres de vestidos rodados verde-amarelos e turquesa, dançando entre pencas de abacaxis e bananas. 0 suposto "tropicalismo", linguagem comum das novas artes e movimentos, motivo da festa e do falso manifesto, era um bestialógico que misturava passadismo e cafonice para gozar os nacionalistas e tradicionalistas: era absolutamente caótico, embora tivesse até seus momentos divertidos, ironizando o mau gosto nacional e gozando o bom gosto intelectual.
A festa nunca aconteceu, mas a coluna teve grande repercussão e surpreendentemente foi levada a sério, comentada acaloradamente contra e a favor em outros jornais, no rádio e na televisão, que passaram a se referir ao movimento de Gil e Caetano como tropicalismo.
Assim como tinha sido com a bossa nova, no início ninguém sabia bem o que era o tropicalismo. Nem Caetano e Gil e muito menos eu, que no entanto falava disso todo dia na coluna de jornal e defendia ardorosamente o movimento nos programas de televisão. Eles representavam o moderno, o revolucionário, o internacional: o jovem.
0 "Veio" e Elis concordavam sobre o tropicalismo: os dois o detestavam. E detonaram Gil e Caetano nos jornais, abriram guerra. Edu, Dory e Francis estavam chocados, não acreditavam no que ouviam. Para eles, que eram amigos e admiravam os baianos antes do tropicalismo por suas melodias e harmonias sofisticadas, sua poesia lírica e social elaborada, que se identificavam com eles na comum origem jobino-gilbertiana, era uma traição aos ideais comuns, era andar para trás. Músicos rigorosos, Edu, Dory e Francis não compreendiam a adesão tropicalista à jovem guarda e ao rock internacional, que consideravam subinúsica. A eles não interessava a atitude política rebelde, o desejo de experimentar, a vontade de integrar o Brasil com os jovens do mundo e vice-versa, a irreverência a serviço da crítica. Para eles e muitos outros músicos maiores e menores, a música que Gil e Caetano estavam produzindo era pior - porque mais distante de Tom e João -, e nada justificava isso. Não era um avanço, mas um atraso. E mais: alguns se sentiam pessoalmente atingidos. Tempo quente no eixo Rio-São Paulo-Salvador.
Chico foi mais cool. Evitou o confronto pelos jornais e ao mesmo tempo foi poupado das críticas mais fortes do tropicalismo, que pegava mais pesado com Vandré e a "esquerda universitária" da MPB. Caetano tinha um irresistível fascínio por Chico e, como todo mundo, respeito por sua produção de grande poeta musical. Mas o confronto era inevitável. Nas esquinas e nos botecos, o oposto de Gil e Caetano, por menos que eles quisessem, era Chico. Os estudantes, unidos contra a ditadura, se dividiam apaixonadamente entre Chico e Caetano, entre Vandré e Gil, entre o tropicalismo e a MPB.
Além do afeto pessoal e do prazer da companhia, a necessidade profissional de manter boas fontes com todos os protagonistas daquele momento me obrigou a malabarismos dialéticos para manter uma convivência harmônica com Chico, Edu, Gil, Caetano, Dory, Francis, Ronaldo e Elis ao mesmo tempo, evitando brigas e discussões acaloradas, conciliando, tentando harmonizar, procurando pontos em comum. Não gosto de ver amigos meus brigando entre si, procuro defendê-los uns dos outros, aproximã-los. Ao mesmo tempo me fascinam a diferença, a diversidade, as possibilidades da liberdade criativa. E principalmente eu gostava de todos eles e não queria perder a amizade de ninguém, fazia tudo para não ter que escolher entre uns e outros, achava todos talentosíssimos e procurava me manter fiel a todos. Menos ao leitor. Contrariando o espírito jornalístico, nunca cogitei em perder um amigo por causa de uma notícia, e talvez por isso mesmo tive acesso direto e permanente a todos eles e fiz de minha coluna porta-voz de suas idéias e ações. E dei sempre primeiro as melhores - e piores - notícias de todos os lados do front cultural naquele fatídico 1968.

texto extraído do capítulo "Alvorada Tropicalista"