Ihu: Todos os sons - Marlui Miranda
Terra Editora - 1995
ISBN 85.85136-04-9
 
Música brasileira: duas palavras que definem uma infinidade de tendências, de melodias, harmonias e ritmos diversos, e que se traduzem numa das maiores expressões culturais do nosso país. Se caracterizando pela mistura de influências diversas, a européia, a africana, a americana e a latina, nossa música criou formato próprio e traduz no seu variado cardápio uma sonoridade que reflete a misturança étnica e cultural basileira.
Brasileira, portanto multifacetada, nossa música possue uma gama de cores e texturas tão abrangentes, que a própria riqueza de sua diversidade não permite uma definição precisa do que ela realmente é.
Fica-se pensando no seguinte: porque nunca a música criada pelos povos nativos do Brasil jamais se inseriu dentro desse contexto?
Talvez por força das circuntâncias históricas da colonização do Brasil, ou talvez, quem sabe, pela riqueza que o povo brasileiro tem em transformar expressões de qualquer parte do mundo em sua própria expressão. Tudo isso parece ter significado que a música nativa do Brasil seria prescindível.
A dificuldade na compreensão e na fonéitca de grupos tão brasileiros, ao mesmo tempo possuidores de línguas e de costumes tão distintos de nós - também brasileiros - pode ter influenciado esse contexto. O mercado cultural brasileiro, talvez não tivesse interesse em consumir uma expressão musical ainda muito primitiva, sem a força maior da sofisticação que o mesmo impôs à nossa música.
No entanto, essas e outras razões possíveis não explicam essa enorme lacuna que existe ainda hoje sobre a música dos nossos povos.
A equação, então, passou a ser outra: como inserir o universo da música indígena brasileira num mundo cada vez mais voltado para o consumo de produtos que se relacionam entre si através de uma rede voltada para a tecnologia da comunicação e para o mecanismo da arte? Ou seja, como fazer com que o público ouça essa música a um só tempo minimal, simples e complexa, e perceba a importância de sua existência? Ou ainda, como tornar a música indígena brasileira interessante para um mercado consumidor maior? Essas perguntas foram se dissipando ao longo do processo criativo de Ihu: Todos os Sons.
O gigantesco trabalho de pesquisa, recolhimento e reinterpretação que Marlui executou, e o seu enorme talento como intérprete, foram fazendo com que a visão do trabalho se tornasse cada vez mais clara.
Mais do que isso: a solidez de Marlui diante da diversidade fonética e musical que está inserida no trabalho, e sua capacidade de penetrar no universo da música improvisada, propiciaram um discurso que une de forma inédita duas visões em uma só: a música nativa sob seu próprio ponto de vista - com suas nuances - e a visão que nós, músicos brasileiros e músicos de outros países tivemos do material original.
O resultado se traduz no mais completo mapeamento da música indígena brasileira executado até os dias de hoje, ao mesmo tempo em que a coloca dentro de um patamar de audição que desperta o interesse não só de etnomusicólogos, como também do público em geral, fazendo com que a música nativa do Brasil se transforme em produto de consumo para ouvintes de música de todos os gostos.
A publicação das partituras e de textos explicativos do trabalho, fazem com que a música dos nossos povos e o trabalho de Marlui se expanda e torne possível que músicos e interessados possam travar um contato direto com nossas diversas culturas e passem a entender, como nós entendemos, que a divulgação desse material em livro e em Cd é fundamental para que o nosso riquíssimo manancial de música se diversifique ainda mais.
Que seja muito utilizado por maestros, coros, músicos artistas e escolas, é isso que esperamos.
Esperamos ainda mais: que Ihu possa se tornar um primeiro projeto dentre vários que são necessários para que essa lacuna seja preenchida cada vez mais, e que possamos integrara de modo definitivo no nosso repertório, a beleza e criatividade de nosso povo, através de uma das suas mais importantes contribuições: a música.
Rodolfo Stroeter
abril 1995