Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga

Dominique Dreyfus

Editora 34, São Paulo 1996
ISBN 85-7326-034-3

Prefácio, por Gilberto Gil:

O caminho que a música popular percorre, do campo para a cidade, correspondendo ao êxodo das populações rurais para os centros urbanos maoires, vem sendo aberto e pavimentado ao longo do século, numa série de ciclos dos quias os mais intenso e significativos, numa escala verdadeiramente nacional, se deram, essencialmente, nas décadas dos quarentas e cinquantas. Os vários modos folclóricos que os povos do interior foram criando e acumulando durante o longo período da colonização, começam a escoar mais intensamente para as cidades, na primeira metade deste século. Item indispensável na bagagem do êxodo rural, conseguem se estebelecer, definitivamente, senão como base formadora, pelo menos como ingrediente importante na constituição dos novos gêneros urbanos que vieram a plasmar a nossa música popular, a partir dos anos trintas. Dentre aqueles gêneros diretamente criados a partir da matriz folclórica, está o Baião e toda a sua família. E da família do baião Luiz Gonzaga foi o pai.

Seu nome se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira, como aquele que , graças a uma imaginativa e inteligente utilização de células rítmicas extraidas do pipocar dos fogos, de moléculas melódicas tiradas da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro, de corpos narrativos vislumbrados na paisagem natural, biológica e psicológica do seu meio, e, sobretudo, da alquímica associação com o talento poético e musical de alguns nativos nordestinos emigrantes como ele, veio a inventar um gênero musical, o baião. O baião que `a frente de toda uma família de derivados, não só do norderste como de outras regiões do país, passa a se constituir no principal gênero da nossa música popular, depois do samba.

Este livro escrito por Dominique Dreyfus, uma jornalista francesa com profunda vivência das coisas do Brasil e da cultura nordestina, vem fazer justiça `a vastidão e riqueza da paisagem humana gonzagueana, finalmente retratada na sua variedade de tonalidades existenciais, topografias morais, micro-climas afetivos - com suas serras amenas e seus razos de cactus e cipoais ameaçadores. Paisagem ora representada por uma estrada plana na campina aberta do amor incondicional ao povo, ora por uma gruta insondável e misteriosa no interior de um lajedo da alma. Paisagem, enfim, iluminada, aqui, com a luz ofuscante e inebriante do canto de peito aberto, ou obscurecida, alí, pela fumaça sufocante da fogueira das vaidades e das ambições.

Eu, como discípulo e devoto apaixonado do grande mestre do Araripe, associo-me `as eternas homenagens que a História continuadamente prestará ao nosso Rei do Baião, abrindo ao leitor, com palavras de louvação e gratidão, as páginas deste livro.

Este livro, eu sei, é fruto do imenso amor e admiração de tantos que tiveram o privilégio do convívio com o belo e encantador mulato da caatinga. Tantos entre os quais a autora, estou seguro, tem grande orgulho de estar incluida.

Gilberto Gil