Cidade do Salvador
1974 Universal (Caixa Ensaio Geral)

 
No início de 1973, Gilberto gil entrou no moderno estúdio de 8 canais da Polygram - na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - para gravar um novo álbum de carreira. Um ano depois de "Expresso", ele tinha diversas músicas prontas e uma banda afinadíssima por conta de inúmeros shows Brasil adentro. Logo nas primeiras sessões gravou, com participação de Dominguinhos, duas músicas para um compacto urgente: "Eu Só Quero um Xodó" e "Meio de Campo", após o que pôde mergulhar profundamente nas sessões do álbum.
Finalmente lançado no mercado 25 anos após sua gravação,"Cidade do Salvador" traz em seu repertório algumas músicas inéditas e também algumas pérolas que, nos meses e anos seguintes, foram sendo aproveitadas pelo próprio Gil ou por seus colegas.
Finalmente lançado no mercado 25 anos após sua gravação, "Cidade do Salvador" traz em seu repertório algumas músicas inéditas e também algumas pérolas que, nos meses e anos seguintes, forma sendo aproveitadas pelo próprio Gil ou por seus colegas. Na ordem: "Edyth Cooper" foi gravada em 1974 pelo artista (hoje transformista) Edy Star; "Iansã foi magistralmente gravada por Maria Bethânia; "Doente, Morena" e "Ladeira da Preguiça" entraram para o repertório de Elis Regina; "Rainha do Mar", original de Dorival Caymmi, acabou ganahando versão de Gal Costa; e "Duplo Sentido", composta como um bolero para Roberto Carlos, acabou sendo gravada por Jards Macalé. As músicas do disco guardam algumas histórias. "Essa é pra tocar no rádio" foi gravada em dois takes e o segundo, eleito como o melhor, ganhou uma sanfona de Dominguinhos e acabou entrando para o disco "Refazenda" (75) após alguns enxertos. Aqui ela entra em seu primeiro take, gravado ao vivo no estúdio com a energia de uma banda de palco. Já na sequência acústica, Gil nos apresenta a versão original de "Tradição", regravada para lançamento em "Realce" (79); e, em seguida, uma performance de "Nega na Janela", samba que sempre fez parte de seu repertório nos shows e que ganhou versão definitiva no LP "Antologia do Samba-Choro" (78). Já a faixa-título "Cidade do Salvador", apresentada por Gil nos shows da época como "a mais mineira de suas composições, por ter sido inspirada em Milton Nascimento", relamente nos remete a uma interpretação de Bituca. Fechando o dico, músicas lançadas em compactono correr do ano de 1974: "Eu preciso aprender a só ser", lado B de "Maracatu Atômico" - que entra no disco primeiramente num take interrompido e depois na versão lançada comercialmente, para finalmente voltar para fechar o disco numa longa regravação eletrificada, que acabou sendo descartada em favor da primeira. "Todo dia é dia D", gravada por Gil para um compacto-brinde de um livro nos anos 70, sob produção de Waly Salomão, aparece comercialmente pela primeira vez. E "Esses moços (Pobres moços)", feita para um compacto-duplo em homenagem a Lupicínio Rodrigues, completa as gravações desta fase antes de termos uma curiosidade: a versão original de "Meditação", música instrumental que - uma vez letrada - acabou sendo totlamente regravada para "Refazenda". É uma boa maneira de fechar oficialmente o disco, mas temos ainda duas faixas bônus criadas em clima de pandemônio no estúdio , ao término das sessões em 1974. Com o passar dos meses, "Cidade do Salvador" foi ficando para trás, novas músicas foram sendo feitas e, já na virada de 74 para 75, novos trabalhos surgindo. O lançamento deste disco preenche a incrível lacuna de três anos que existe entre "Expresso 2222" e "Refazenda" - comum nos dias de hoje, mas absurda nos tempos em que gravava-se até mais do que um disco por ano.
 
Marcelo Fróes
setembro de 1998