Gilberto Gil
Philips 1968
Eu sempre estive nu. Na Academia de Acordeão
Regina tocando La Cumparsita, eu estava nu. Eu só sabia que estava
nu, e ao lado ficava o camarim cheio de roupas coloridas, roupas de astronauta,
pirata, guerrilheiro. E eu, do mais pobre da minha nudez, queria vestir
todas. Todas, para não trair minha nudez. Mas eles gostam de uniformes,
admitiriam até a minha nudez, contanto que depois pudessem me esfolar
e estender a minha pele no meio da praça como se fosse uma bandeira,
um guarda-chuva contra o amor, contra os Beatles, contra os Mutantes. Não
há guarda-chuva contra Caetano Veloso, Guilherme Araújo,
Rogério Duarte, Rogério Duprat, Dirceu, Torquato Neto, Gilberto
Gil, contra o câncer, contra a nudez. Eu sempre estive nu. Minha
nudez Raios X varava os zuartes, as camisas listradas. E esta vida não
está sopa e eu pergunto: com que roupa eu vou pro samba que você
me convidou? Qual a fantasia que eles vão me pedir que eu vista
para tolerar meu corpo nu? Vou andar até explodir colorido. O negro
é a soma de todas as cores. A nudez é a soma de todas as
roupas.
Texto de Gilberto Gil psicografado por Rogério
Duarte
( na capa original do LP)