Há várias maneiras de se cantar
e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas.
Assim, ele se entende com o público. E
daí, o espanto dos incautos que não entendem (ou aceitam)
a extraordi~ária musicalidade de Gil e o modo pelo qual ele apreende
e pode utilizar - do jeito mais pessoal - qualquer forma musical nossa,
do baião ao samba, da marcha-rancho à canção
romântica. O repertório desse seu primeiro elepê foi
escolhido para que o público possa ter uma visão geral do
caminho que ele vem seguindo, no trabalho que desenvolve ativamente
de uns cinco anos para cá, primeiro na Bahia, depois em São
Paulo e no Rio.
Portanto, estão aqui sucessos recentes,
como "Roda", "Lunik 9" ou "Louvação", ao lado de composições
novas, inéditas ("Água de Meninos", "Beira Mar", "A Rua")
e outras, mais antigas, como "Maria", "Amor de Carnaval" ou "Procissão".
No todo, este disco pretende deixar claro que meu querido amigo e parceiro
Gilberto Gil está pronto para assumir o lugar que o situa - entre
Chico Buarque de Hollanda e Edu Lôbo - como o compositor mais fértil
e importante da música popular brasileira atual.
Torquato Neto
Grande é o coração do baiano.
Se bem que me convidaram a escrever sobre Gilberto Gil, o compositor, é
difícil separar o baião de seu peito, visto que dançam
tão juntos. Como é impossível desligar de sua cara
redonda os rodeios que sua melodia faz. Sua música se desenrola
tal qual uma serpentina que, antes de terminar seu passeio, dá um
giro a mais, só para nos surpreender.
Há uns tempos atrás, em São
Paulo, Gil mostrou-me uma safra, uma dúzia de composições
novas. Estranhei a princípio. Depois, confesso que senti certa inveja.
Mas o sorriso redondo de Gil venceu, deixando todo mundo doido de vontade
de jogar serpentina logo atrás.
Pelas letras de seu samba, fui apresentado a
Torquato, Capinam e Caetano. Gilberto Gil, que também é ótimo
letrista, quando não encontra as palavras de seu samba sabe quem
as pode adivinhar. É notável como a poesia pessoal de cada
um de seus parceiros leva uma marca de Gil como denominador comum. É
que Gilberto Gil contagia, no bate-papo, no bate-caixa, na sinceridade
de cantar. Senão, ouçam.
Chico Buarque de Hollanda
O pessoal da nossa moderna música popular
encontrou uma montanha de perguntas pelo caminho. Perguntas que o samba
e seus mais autênticos artistas deixaram, como também deixou
o baião, o chorinho e poderá deixar o iê-iê-iê.
Caetano Veloso, Edu Lôbo, Chico Buarque, Sidney Miller, Torquato
Neto, Paulinho da Viola - geração ótima de compositores
e letristas - estão aí respondendo com o violão, o
coração e os vários estilos de cada um, que são
o conflito entre a formação que tiveram e o momento que enfrentam.
Entre eles, Gilberto Gil, com sua herança
de Luiz Gonzaga, sua posterior paixão por João Gilberto,
Baden e Vinícius, e com sua resposta sensual, densa e alegre - no
mesmo caminho de Caymmi - tendo a Bahia no fundo e a realizada preocupação
de ser popular. Gil é, como os outros, a melhor medida do mais jovem
em nossa música, porque responde. E porque, em nível diferente,
cria novas perguntas sobre o caminho desta música, de nossa saudade
e amor, e sobre, principalmente, o caminho de nós mesmos nestes
tempos de Procissão e Lunik.
José Carlos Capinan
Penso que o canto de Gilberto Gilsitua-se no centro
da única discussão verdadeira sobre a música brasileira
no nosso tempo: uma extraordinária musicalidade que se perde entre
as emoções da cidade e do sertão, do depuramento das
tradições e a vulgaridade total - essa musicalidade que tenta
reencontrar-se além de tudo isso - e que é a mais vigorosa
exigência de que se coloquem em outro nível as relações
de nossa música com a realidade.
Conheço de muito tempo o agrado com que
se pode ouvir o que Gilberto Gil faz em música e sei que isso nasce
da espontaneidade com que ele escolhe as notas, da intimidade bruta com
que se aproxima das formas musicais. Mas prefiro descobrir e ressaltar
que a verdade mais profunda da beleza do seu trabalho está no risco
que corre de descobrir uma beleza maior: a capacidade de criar uma obra
íntegra, assumindo o Brasil inteiro.
Caetano Veloso
(textos da capa original do LP)