Louvação
    Philips 1967

    Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas.
    Assim, ele se entende com o público. E daí, o espanto dos incautos que não entendem (ou aceitam) a extraordi~ária musicalidade de Gil e o modo pelo qual ele apreende e pode utilizar - do jeito mais pessoal - qualquer forma musical nossa, do baião ao samba, da marcha-rancho à canção romântica. O repertório desse seu primeiro elepê foi escolhido para que o público possa ter uma visão geral do caminho que ele vem seguindo, no trabalho que desenvolve ativamente  de uns cinco anos para cá, primeiro na Bahia, depois em São Paulo e no Rio.
    Portanto, estão aqui sucessos recentes, como "Roda", "Lunik 9" ou "Louvação", ao lado de composições novas, inéditas ("Água de Meninos", "Beira Mar", "A Rua") e outras, mais antigas, como "Maria", "Amor de Carnaval" ou "Procissão". No todo, este disco pretende deixar claro que meu querido amigo e parceiro Gilberto Gil está pronto para assumir o lugar que o situa - entre Chico Buarque de Hollanda e Edu Lôbo - como o compositor mais fértil e importante da música popular brasileira atual.

    Torquato Neto

    Grande é o coração do baiano. Se bem que me convidaram a escrever sobre Gilberto Gil, o compositor, é difícil separar o baião de seu peito, visto que dançam tão juntos. Como é impossível desligar de sua cara redonda os rodeios que sua melodia faz. Sua música se desenrola tal qual uma serpentina que, antes de terminar seu passeio, dá um giro a mais, só para nos surpreender.
    Há uns tempos atrás, em São Paulo, Gil mostrou-me uma safra, uma dúzia de composições novas. Estranhei a princípio. Depois, confesso que senti certa inveja. Mas o sorriso redondo de Gil venceu, deixando todo mundo doido de vontade de jogar serpentina logo atrás.
    Pelas letras de seu samba, fui apresentado a Torquato, Capinam e Caetano. Gilberto Gil, que também é ótimo letrista, quando não encontra as palavras de seu samba sabe quem as pode adivinhar. É notável como a poesia pessoal de cada um de seus parceiros leva uma marca de Gil como denominador comum. É que Gilberto Gil contagia, no bate-papo, no bate-caixa, na sinceridade de cantar. Senão, ouçam.

    Chico Buarque de Hollanda

    O pessoal da nossa moderna música popular encontrou uma montanha de perguntas pelo caminho. Perguntas que o samba e seus mais autênticos artistas deixaram, como também deixou o baião, o chorinho e poderá deixar o iê-iê-iê. Caetano Veloso, Edu Lôbo, Chico Buarque, Sidney Miller, Torquato Neto, Paulinho da Viola - geração ótima de compositores e letristas - estão aí respondendo com o violão, o coração e os vários estilos de cada um, que são o conflito entre a formação que tiveram e o momento que enfrentam.
    Entre eles, Gilberto Gil, com sua herança de Luiz Gonzaga, sua posterior paixão por João Gilberto, Baden e Vinícius, e com sua resposta sensual, densa e alegre - no mesmo caminho de Caymmi - tendo a Bahia no fundo e a realizada preocupação de ser popular. Gil é, como os outros, a melhor medida do mais jovem em nossa música, porque responde. E porque, em nível diferente, cria novas perguntas sobre o caminho desta música, de nossa saudade e amor, e sobre, principalmente, o caminho de nós mesmos nestes tempos de Procissão e Lunik.

    José Carlos Capinan

    Penso que o canto de Gilberto Gilsitua-se no centro da única discussão verdadeira sobre a música brasileira no nosso tempo: uma extraordinária musicalidade que se perde entre as emoções da cidade e do sertão, do depuramento das tradições e a vulgaridade total - essa musicalidade que tenta reencontrar-se além de tudo isso - e que é a mais vigorosa exigência de que se coloquem em outro nível as relações de nossa música com a realidade.
    Conheço de muito tempo o agrado com que se pode ouvir o que Gilberto Gil faz em música e sei que isso nasce da espontaneidade com que ele escolhe as notas, da intimidade bruta com que se aproxima das formas musicais. Mas prefiro descobrir e ressaltar que a verdade mais profunda da beleza do seu trabalho está no risco que corre de descobrir uma beleza maior: a capacidade de criar uma obra íntegra, assumindo o Brasil inteiro.

    Caetano Veloso

    (textos da capa original do LP)